Qual a relação entre a valorização da educação pública e o voto em Bolsonaro?

em Cruzamento de Dados

Qual a relação entre o piso salarial do professor e o percentual de votos válidos recebidos por Bolsonaro? Essa foi a pergunta que nos fizemos quando a Gazeta do Povo divulgou recentemente um levantamento feito em todas as secretarias de educação do país, comparando o piso salarial de todos os estados do Brasil.

Para respondê-la, era necessário medir a correlação entre essa valorização do professor e a votação em Bolsonaro. Para isso, criamos um índice “piso salarial do professor / Produto Interno Bruto (PIB) per capita do Estado” para medir a propensão do estado de pagar bem seus professores em relação à capacidade que eles têm para isso. O cruzamento dos dois eixos mostra uma correlação logarítmica de aproximadamente 50% (ou 42% pra linear), um R2 bem considerável em termos estatísticos. Como o estado do Maranhão se apresentava como um “outlier”, com valores muito extremos nos dois eixos, foi desconsiderado em uma segunda simulação, que resultou em um coeficiente de regressão linear R2 de 0,44.

O que isso significa? Em primeiro lugar é preciso interpretar bem os parâmetros. O índice proposto no eixo horizontal (piso salarial do professor / PIB pc) é uma razão entre o piso mínimo estabelecido para o salário dos professores em relação à capacidade estatal de pagar esse piso. Quanto maior o piso salarial de um professor, maior a vontade política de um governo em comprometer seu orçamento com educação a longo prazo. Já quanto maior o PIB per capita, maior a capacidade que um governo tem de fazer isso e, indiretamente, também maior a necessidade, pois estados com maior PIB também costumam ter maior custo de vida. SP e RN, por exemplo, pagam o mesmo piso aos seus professores, mas têm custos de vida e orçamentos de governo bem diferentes. Enquanto SP com maior capacidade orçamentária tem índice 8,5% e teve 67,7% de votos em Bolsonaro, RN com índice de salário/PIB três vezes maior que SP teve votação duas vezes menor em Bolsonaro.

Quanto isso explicaria a guerra de Bolsonaro contra a educação? Bom, a correlação entre as variáveis existe, é bastante alta para fenômenos sociais, e precisa ser explicada. Há certamente outras variáveis que influenciam em maior ou menor grau, como por exemplo a região — visto que a população do Nordeste foi mais beneficiada com políticas públicas nas gestões petistas e, por isso, tenderia a votar mais em Haddad no segundo turno. Entretanto, apesar dos dois “clusters” que se formam nas diagonais superior e inferior misturarem estados de regiões e IDHs diferentes — de um lado, por exemplo, SP, AC e SC; e do outro CE, TO e AL –, o índice proposto ajuda a explicar especialmente as variações dentro dos próprios clusters. Obviamente não se trata de causalidade direta, nem muito menos estamos sugerindo que os professores “convençam” os alunos em quem votar. É preciso um indicativo mais estrutural.

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Qual poderia ser a explicação? A tese aqui é que em estados onde a sociedade valoriza mais a educação há uma propensão maior a valorizar o professor e, portanto, a fazer um esforço maior para remunerá-lo bem (relação piso / PIB pc mais alta), e isso está ligado a uma menor abertura para discursos obscurantistas. Nesses estados, o discurso que se sagrou vencedor nas eleições de 2018 tem uma penetração menor, porque esse discurso nega os valores fundamentais da educação iluminista. Nesses estados, conseguir colocar os alunos em uma sala de aula é uma conquista social, e a figura do professor goza de algum prestígio, pois é aquele que se dedica não só a dar acesso ao conhecimento produzido pela humanidade — muitas vezes negado às gerações anteriores –, como pode oferecer um sentido à narrativa de mundo dessas famílias e ainda oferecer a elas instrumentos de ascenção econômica e social.

No outro grupo encontram-se os estados onde o discurso da educação domiciliar tem mais penetração. Admite-se que escola — especialmente a escola pública — teria uma importância social relativamente menor, pois discursos “alternativos” aos conteúdos dos livros didáticos oficiais tiveram maior popularidade. Permeados também por narrativas de mercado, as quais promovem os “autodidatas”, que podem apenas absorver e regorgitar informações largamente disponíveis online, essas sociedades vêm tirando o protagonismo da escola na missão de garantir acesso ao conhecimento e à capacidade de refletir sobre esse conhecimento para que seja interpretado mais que apenas internalizado.

Sabemos qual conjunto saiu vencedor dessas eleições. Como resultado, o atual governo federal promove a maior desvalorização da institucionalidade da educação pública que já observamos, colocando no MEC de tudo, exceto educadores. A Educação foi a linha do orçamento que mais sofreu cortes (R$ 30 bi), o MEC foi aparelhado entre militares e olavistas, com agenda reformista em todas as instâncias, e já teve o ministro trocado depois de apenas três meses de governo.

A validade das variáveis é alta – 88% dos educandos estão em escola pública — e a confiabilidade é particularmente valiosa, já que as variáveis utilizadas (votação, PIB, população e piso salarial) se baseiam em medidas precisas e não em amostras estatísticas. Mas, pode-se alegar que uma amostra de 27 estados pode ser contestada para fins de correlação estatística, e que fenômenos sociais são sempre muito complexos para serem reduzidos a correlações simples. De toda forma, dentro das possibilidades metodológicas, os dados aqui correlacionados podem sugerir o que também se observa por outros meios: onde há valorização da educação, há maior abertura para reflexão e crítica, e os ideais iluministas permanecem fortes como parâmetros de classificação do que é verdadeiro em oposição ao que é “fake”.


Daniel S. Lacerda é professor e pesquisador de administração pública da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e colaborador da plataforma O Iceberg.

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